DO SEMIÁRIDO À BARRA: CACAU DO NORTE DE MINAS SE TRANSFORMA EM CHOCOLATE
O cultivo de cacau, historicamente associado a regiões de elevada umidade, começa a consolidar resultados promissores no clima semiárido do Norte de Minas. Pesquisas desenvolvidas no campus da Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes), em Janaúba, confirmam o potencial produtivo da cultura na região e já registram um marco histórico: a produção do primeiro chocolate elaborado exclusivamente com cacau cultivado localmente.
A iniciativa reforça o protagonismo do Norte de Minas na diversificação agrícola e no fortalecimento de cadeias produtivas de alto valor agregado.
Pesquisa aplicada e inovação tecnológica
O projeto é coordenado pelo professor Victor Maia e investiga o desempenho de diferentes clones de cacaueiro sob condições de déficit hídrico controlado, realidade típica do semiárido mineiro. A proposta é avaliar a adaptação da cultura a temperaturas elevadas e menor disponibilidade de água, sem comprometer produtividade e qualidade.
A variedade CCN 51, cultivada na Fazenda Experimental da Unimontes e complementada por sementes de produtores locais de Janaúba, foi utilizada na produção experimental do chocolate.
As análises são conduzidas no Laboratório de Tecnologia de Produtos de Origem Vegetal (TPOV), sob coordenação da professora Maristella Martinelli, abrangendo:
Perfil químico: avaliação do teor de gordura e de compostos fenólicos (antioxidantes), determinantes para a adstringência e o valor funcional do chocolate;
Qualidade sensorial: testes de aroma, sabor e textura, fundamentais para a aceitação do consumidor;
Desenvolvimento de formulações: elaboração de chocolate ao leite e avaliação de novos genótipos adaptados às condições regionais.
Identidade regional e geração de valor
A adaptação do cacaueiro ao semiárido representa um avanço estratégico para o agronegócio do Norte de Minas. O sucesso inicial dos experimentos abre perspectivas para a consolidação de uma cadeia produtiva diferenciada, com foco em chocolates do tipo bean to bar — da amêndoa à barra — agregando identidade regional, rastreabilidade e qualidade superior ao produto final.
Especialistas apontam que a região reúne condições favoráveis para se tornar um novo polo produtor de cacau, desde que associadas a práticas adequadas de manejo e irrigação. Além do impacto econômico, o projeto fortalece o ensino, a pesquisa e a inovação tecnológica na Unimontes, contando com o apoio de agências como a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig) e o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), responsáveis pelo suporte ao reaparelhamento e modernização dos laboratórios.
Nova oportunidade para o Norte de Minas
A introdução do cacau no semiárido mineiro representa mais do que uma inovação agrícola: trata-se de uma estratégia de diversificação produtiva, geração de renda e valorização territorial.
Ao unir pesquisa científica, tecnologia e vocação regional, o Norte de Minas amplia suas fronteiras produtivas e posiciona-se no cenário da confeitaria fina e da indústria de alimentos de alto valor agregado, fortalecendo sua imagem como território de inovação e desenvolvimento sustentável.